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Bolsa dispara com trade eleitoral: o que pode abalar o otimismo do mercado?
Resumo:Mercado precifica eleição competitiva, mas aguarda "luz" sobre cenário fiscal
Mercado precifica eleição competitiva, mas aguarda “luz” sobre cenário fiscal
O mercado financeiro brasileiro deu a largada em setembro correndo atrás de perdas sofridas nos últimos meses.
E o movimento das últimas semanas tem colocado cada vez mais no preço dos negócios as eleições presidenciais deste ano. É o chamado “trade eleitoral”, quando investidores montam estratégias de alocação de curto prazo focadas na repercussão do cenário político.
Algumas casas, como a Nomos, chegam inclusive a montar relatórios apontando empresas para se posicionar a depender do resultado do pleito de outubro.
O motor por trás desse impulso foram pesquisas de opinião mostrando o senador e candidato à Presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, empatado tecnicamente contra o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O mercado passou a precificar uma eleição “altamente competitiva”, como descreveu o Goldman Sachs em relatório de pesquisa da última sexta-feira (4).
Na sequência das amostras eleitorais, o Ibovespa subiu 12% em 11 pregões, o dólar foi na direção dos R$ 5,00 e os juros futuros viram suas taxas recuarem, relembrou relatório da Nomos na quinta-feira (3).
“Sendo totalmente imparcial e analisando somente os movimentos nos juros, câmbio e Bolsa, o mercado tem apreciado o avanço da oposição no pleito eleitoral por entender que Bolsonaro pode montar uma equipe econômica mais comprometida com o equilibro das contas públicas que possibilitará que as taxas de juros caiam e o real se fortaleça”, escreveu o estrategista de ações da casa, Max Bohm.
Mas até onde vai o voo da Bolsa? Na quarta-feira (9), o Ibovespa fechou em queda e o dólar subiu com a aversão ao risco no exterior e o barril do petróleo Brent voltando a superar os US$ 100, enquanto investidores seguem acompanhando a crise no STF (Supremo Tribunal Federal) e seus potenciais reflexos no cenário eleitoral.
“O Ibovespa perde força e devolve boa parte do avanço da véspera, chegando a cair com intensidade e testar as mínimas do dia. O recuo acompanha a piora do humor lá fora, com bolsas caindo diante do petróleo mais caro e do temor de juros mais altos por mais tempo nos EUA”, escreve a Nomad.
“Mesmo com a Petrobras entre as poucas ações em alta, o índice não escapa da pressão negativa generalizada, puxada especialmente pelo setor bancário e por papéis mais sensíveis ao ciclo econômico”, pontua.
- O que pesa contra o otimismo do mercado?
- Incerteza sobre as eleições
- Luz no fim do túnel
O Banco Pine ponderou, em relatório desta terça-feira (8), que o cenário geopolítico tensionado, a alta do petróleo e a pressão sobre os juros internacionais podem limitar a alta recente do Ibovespa e “manter elevada a volatilidade” do mercado.
Para além dos conflitos e do petróleo subindo, os investidores voltam os olhos para uma garantia mais segura nos EUA com a expectativa de alta das taxas do Federal Reserve por lá.
Nesta quinta-feira (10), a BLS (Secretária de Estatísticas do Trabalho dos EUA) divulga o PPI (Índice de Preços ao Produtor) referente ao mês de agosto. No dia seguinte, virá o CPI (Índice de Preços ao Consumidor).
Esses são os últimos dados de inflação antes de o Fed se reunir para sua decisão de juros de 16 de setembro, e vêm após o principal indicador acompanhado pelo Banco Central dos EUA, o PCE (Despesas de Consumo Pessoal), acumular alta de 3,7% nos 12 meses até julho.
A expectativa do mercado é de que os preços sigam tensionados, pressionando o Fed a elevar os juros na reunião da próxima semana. A ferramenta FedWatch do CME Group aponta que 60,4% do mercado aposta que o Federal Reserve irá subir suas taxas de juros em 0,25 ponto percentual, colocando-as na banda de 3,75% a 4%.
Outros 39,6% veem manutenção no patamar de 3,5% a 3,75%.
E para além das expectativas de curto prazo, a tensão pressiona a chamada curva de juros futuros, que precifica o valor de vencimento no longo prazo, e serve como referência para contratos e títulos de renda fixa. E é essa pressão na curva de juros lá fora que reflete um impacto para o Brasil.
“A expectativa por uma alta nas taxas de juros nos Estados Unidos exerce um forte efeito de atração sobre o capital global, fenômeno conhecido no mercado financeiro como flight to safety ou corrida para a segurança. Quando o Federal Reserve sinaliza ou efetiva o aperto monetário, os rendimentos dos Treasuries — os títulos da dívida pública norte-americana — tornam-se extremamente atraentes por combinarem retornos mais elevados com o menor risco de crédito do mercado”, explica Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad.
“Esse movimento altera significativamente a atratividade relativa dos ativos mundiais, levando grandes investidores institucionais a realocarem seus portfólios em direção aos EUA para capturar esses ganhos sem a necessidade de incorrer em riscos cambiais ou operacionais típicos de economias emergentes”, pontua.
Há dois anos, em setembro de 2024, o juro de 10 anos do Tesouro dos Estados Unidos era precificado a 3,84%, enquanto o de 30 anos - maior prazo - era negociado a 4,13%. No curto prazo, de um ano, o título era avaliado em 4,35%.
Mais tarde, em setembro de 2025, o bond de um ano estava em 3,82%, o de 10 anos em 4,28% e o de 30 em 4,97%.
Os títulos norte-americanos subiram nas últimas sessões, e hoje são avaliados, respectivamente, em 4,17%, 4,83% e 5,28%.
O Banco Pine defende que “o noticiário eleitoral pode sustentar desempenho relativamente mais favorável dos ativos brasileiros”.
“A reprecificação eleitoral pode favorecer a Bolsa, o Real e os juros domésticos por meio da expectativa de mudanças na condução da política econômica”, reforçou em relatório.
Ainda assim, o mercado ainda observa o momento com apreensão. Isso porque a principal “luz” que os investidores ainda buscam é uma sinalização clara dos candidatos de compromisso com o controle das contas públicas.
O Sachs reforça: “os investidores continuam focados nas vulnerabilidades fiscais do Brasil, mas nenhum dos candidatos apresentou ainda uma estratégia fiscal clara e detalhada para o próximo mandato presidencial”.
Em análise buscando responder “como o pleito eleitoral impacta diferentes classes de ativos”, a XP ressalta “a elevação da incerteza e imprevisibilidade que envolvem o resultado”.
O relatório observa que os investidores se mantém alertas na busca por entender as “regras do jogo” sob as quais atuarão as empresas, suas alocações e qualquer brasileiro comum.
Os estrategistas da casa listam entre as tais regras o ambiente regulatório para diferentes setores, o grau de autonomia na condução da política monetária, as próprias regras eleitorais, o arcabouço para decisões judiciais e a gestão da política fiscal, esta última que, segundo a XP, “é de particular relevância para o Brasil”.
“Enquanto o desfecho de um pleito permanece em aberto, investidores não sabem quais serão as 'regras do jogo econômico' nos anos seguintes. Diante dessa falta de clareza, o comportamento de agentes de mercado tende a ser o de embutir um 'desconto de incerteza' no preço dos ativos, como forma de se proteger do desconhecido”, diz o relatório.
“A incerteza eleitoral também se propaga para a economia real: decisões de investimento produtivo tendem a ser adiadas, empresas adotam postura mais cautelosa e o consumo pode arrefecer, à espera de mais clareza sobre o cenário à frente. Não por acaso, indicadores de incerteza econômica e de atividade real costumam se mover em direções opostas: quando a incerteza sobe, a atividade tende a arrefecer, e vice-versa”, indica.
Uma pesquisa da Resenha Company mostra que 87,5% dos empresários e executivos já percebem algum impacto das eleições no planejamento de seus negócios. O principal efeito é o adiamento de decisões, tanto pelas próprias companhias quanto por clientes e fornecedores.
O BofA (Bank of America) tende a abraçar o Brasil com maior otimismo, a ponto de retomar a classificação “overweight” do país em seu portfólio de ações latino-americanas. Rebaixados em junho, os papéis nacionais voltaram ao holofote com a perspectiva sobre juros no radar.
Além de notar a retomada de fluxo estrangeiro para o país nas últimas semanas - movimento de vai e vem que chegou a levar a Bolsa a bater recordes no ano e acumular sequências históricas de queda -, o banco destaca o potencial que a queda da Selic traz para as ações brasileiras.
O boletim Focus do BC (Banco Central) mostra que o mercado vê, em média, a taxa básica de juros caindo dos atuais 14% para 12% ao final de 2027. Anteriormente, o BofA via a Selic em 12,75% no próximo ano. Agora, a precifica em 11,25%.
“A desaceleração da atividade econômica e os menores riscos de inflação podem permitir um ciclo de afrouxamento monetário mais profundo. O impacto de uma política monetária mais frouxa provavelmente levará as avaliações das ações a níveis menos deprimidos, em nossa opinião, superando os riscos de revisões para baixo dos lucros, desaceleração da demanda e, em certa medida, até mesmo a incerteza eleitoral”, disse em relatório desta terça.
O banco reforça a tese de que as ações do Ibovespa estejam avaliadas num preço mais barato do que realmente valham, sobretudo as de empresas mais sensíveis aos juros.
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