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Tarifaço, Irã e Investimentos: A Complexa Relação Econômica entre Brasil e Estados Unidos
Resumo:Enquanto o tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump deixou marcas duradouras em setores exportadores brasileiros, como aviação, autopeças, calçados e café, os investimentos diretos americanos no Brasil continuam firmes, com um salto de 181,8% em novos projetos (greenfield) em 2025, totalizando US$ 12,4 bilhões.

Data: 26 de Maio de 2026
A relação econômico-financeira entre Brasil e Estados Unidos atravessa um momento de profundas contradições em 2026. Enquanto o tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump deixou marcas duradouras em setores exportadores brasileiros, como aviação, autopeças, calçados e café, os investimentos diretos americanos no Brasil continuam firmes, com um salto de 181,8% em novos projetos (greenfield) em 2025, totalizando US$ 12,4 bilhões. Ao mesmo tempo, os investimentos brasileiros diretos nos EUA vêm recuando ano a ano desde 2020, quando atingiram o recorde de US$ 39,2 bilhões. A guerra no Oriente Médio e a consequente disparada dos preços do petróleo adicionaram uma camada extra de complexidade, afetando a inflação e as cadeias de suprimento globais. A relação entre as duas maiores economias das Américas é de integração profunda, mas também de assimetria e vulnerabilidade para o lado brasileiro.
O Impacto do Tarifaço nos Setores Exportadores Brasileiros
Embora as tarifas de 50% anunciadas por Trump não tenham produzido o impacto inicialmente imaginado sobre a economia brasileira como um todo, deixaram marcas em setores exportadores que levarão tempo para serem superadas, principalmente aqueles ligados à indústria de transformação. Ao contrário de outros destinos, em que a corrente comercial é mais concentrada em commodities, os EUA absorvem uma parcela importante de bens industriais vendidos pelo Brasil.
Para José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), o principal efeito das medidas foi a ampliação da insegurança e da baixa previsibilidade. “Como uma empresa exportadora que faz negócios com os Estados Unidos pode se planejar pelos próximos anos com Trump, se ninguém sabe direito o que esperar dele?”, questiona. O mercado americano é o mercado de manufaturados do Brasil, e qualquer alteração tarifária tende a ter efeito maior sobre empresas brasileiras de maior valor agregado.
O café foi um dos setores mais duramente atingidos. A tarifa extra de 40% sobre o café vindo do Brasil vigorou de agosto a novembro de 2025, causando uma queda de 54,8% na exportação da commodity para o país. Mesmo após a revogação da medida, o volume de café brasileiro exportado para os EUA no primeiro trimestre de 2026 mostrou recuo de 48,3% ante o mesmo período de 2025. Historicamente, o Brasil sempre foi o principal fornecedor de café para os americanos, mas, com o tarifaço, a Alemanha passou a ser – ainda que por pouco – o maior importador de café brasileiro.
A Guerra no Irã e os Preços do Petróleo
A guerra no Oriente Médio, iniciada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, teve um impacto indireto, mas significativo, sobre a economia brasileira. O conflito praticamente interrompeu o tráfego no Estreito de Hormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo, impulsionando os preços da energia e aumentando a volatilidade nos mercados financeiros.
A disparada do petróleo elevou os custos de produção e transporte no Brasil, pressionando a inflação e os custos logísticos. Para os exportadores brasileiros, a combinação de tarifas americanas e aumento dos custos internos criou um ambiente de dupla pressão, reduzindo a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional.
Investimentos Americanos no Brasil: Firmes e em Aceleração
Apesar das tensões comerciais, os investimentos diretos americanos no Brasil continuam sólidos. Os EUA detêm a maior participação no estoque total de investimento direto estrangeiro (IDE) no Brasil, com US$ 232,8 bilhões (26,3% do total). Os setores de petróleo e gás (US$ 58,2 bilhões), atividades financeiras e de seguros (US$ 50,8 bilhões) e informação e comunicação (US$ 46,6 bilhões) lideram o ranking de setores.
No investimento para projetos novos (greenfield), houve uma variação positiva de 181,8% de 2024 para 2025, saltando de US$ 4,4 bilhões para US$ 12,4 bilhões. Os principais setores que atraíram projetos construídos do zero foram software (118 projetos, US$ 12,9 bilhões), fabricação de veículos, máquinas industriais e eletrônicas, químicos e plásticos e produtos metálicos.
Nos próximos anos, as operações de data centers no Brasil devem concentrar boa parte dos investimentos americanos. A Equinix investiu US$ 114 milhões em seu novo centro de dados em Santana de Parnaíba (SP), projetado para aplicações de inteligência artificial (IA). A Microsoft (US$ 2,7 bilhões) e a AWS (US$ 1,8 bilhão até 2027) também têm investimentos em curso. O Brasil vem ganhando destaque como possível hub de IA na América Latina, impulsionado pela combinação de energia renovável abundante, conectividade robusta e incentivos fiscais.
Investimentos Brasileiros nos EUA: Em Queda
Enquanto os investimentos americanos no Brasil aumentam, os investimentos brasileiros diretos nos Estados Unidos vêm recuando ano a ano desde 2020, quando atingiram o recorde de US$ 39,2 bilhões. Em 2024, o total foi de US$ 28,88 bilhões, correspondendo a 4,7% dos investimentos diretos de empresas brasileiras no exterior.
Grandes empresas brasileiras, como a Gerdau, a Embraer e a WEG, mantêm operações significativas nos EUA. A Gerdau planeja investir R$ 1,2 bilhão na expansão de sua unidade de aços longos no Texas. A Embraer planeja investir mais de US$ 500 milhões nos EUA nos próximos três a cinco anos. A WEG anunciou um investimento de US$ 77 milhões na modernização de sua fábrica de transformadores no Missouri.
Para empresas de menor porte, como a AESA Empilhadeiras, o mercado americano representa uma oportunidade de expansão, mas o retorno é demorado e é preciso ter um controle financeiro rigoroso. O CEO da Stefanini, Marco Stefanini, recomenda uma visão de longo prazo para quem pensa em investir nos EUA.
A Reação do Governo Brasileiro e os Caminhos Alternativos
Diante do tarifaço, o governo brasileiro busca melhorias e soluções permanentemente. O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, aponta países como China e Austrália como destinos com potencial de crescimento para diversificar as exportações brasileiras.
O BNDES somará R$ 21 bilhões para empresas afetadas pelo tarifaço de Trump e pela guerra no Irã. O Brasil também pode recorrer ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), embora o sistema enfrente limitações, especialmente pela paralisação do Órgão de Apelação.
Conclusão: Uma Relação de Integração e Vulnerabilidade
A relação econômico-financeira entre Brasil e Estados Unidos é de integração profunda, mas também de assimetria e vulnerabilidade para o lado brasileiro. O tarifaço de Trump expôs a dependência brasileira do mercado americano para seus manufaturados, enquanto a guerra no Irã mostrou a fragilidade das cadeias de suprimento globais e o impacto dos choques externos sobre a inflação doméstica.
No entanto, os investimentos americanos no Brasil – especialmente em tecnologia, energia renovável e data centers – continuam firmes e devem crescer. O Brasil tem ativos estratégicos – neutralidade geopolítica, matriz de energia limpa, reforma tributária e câmbio depreciado – que o tornam um destino atraente para o capital americano.
Para o futuro, a diversificação dos parceiros comerciais e o fortalecimento da indústria nacional são desafios centrais. A relação com os EUA continuará a ser fundamental, but o Brasil não pode depender exclusivamente de um único mercado. A paciência, a estratégia e a capacidade de adaptação serão as ferramentas mais valiosas para navegar nas águas turbulentas da economia global.

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